Todas as pessoas podem fazer a diferença na sociedade, diz Vanilda Barboza

Vanilda Maria Barboza (Vanda) defende, em entrevista à Folha da Região, que uma sociedade mais justa é uma construção coletiva. Com cerca de 50 anos de experiência em ações sociais, ela, que atualmente é presidente da Associação de Amparo Ao Excepcional Ritinha Prates, de Araçatuba (SP), destaca que todas as pessoas podem fazer a diferença para o bem. “Não são necessários grandes gestos. Às vezes, basta dar um bom dia com um sorriso, uma disposição em fazer o bem ou dar ouvido para quem precisa”, afirma.

 

Religiosa, ela cita trechos bíblicos para exemplificar conceitualmente que o ser humano foi concebido para fazer o bem, como Efésios (2:10): “Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos”.

 

Sobre a atuação de entidades assistenciais, como a que ela dirige, Vanda afirma que são fundamentais para reunir as pessoas em causas específicas. “Esta é outra forma de agir pelo bem da coletividade”. Leia a entrevista:

 

A senhora tem vasta experiência em atividades de benemerência. Como uma pessoa pode ajudar a transformar o mundo em um lugar melhor?

É mais simples do que as pessoas pensam. Sempre ouço de amigos e gente próxima que elas gostariam de fazer mais pelas instituições ou outros que precisam de apoio e acolhimento. Eu as entendo. Porém, todos podem fazer a diferença para o bem, sempre, no seu cotidiano. Não são necessários grandes gestos. Às vezes basta dar um bom dia com um sorriso, uma disposição em fazer o bem ou dar ouvido para quem precisa.

 

Além destes, posso citar aqui, agora, uma lista de pequenas ações, que podem contribuir para mudar o mundo para melhor. E tenho certeza que quase todo mundo vai se surpreender com as sugestões de posturas e atitudes supersimples, como manter a porta aberta para a pessoa atrás de você, pedir a opinião ou conselho de alguém, oferecer o seu lugar a outro, espalhar uma boa notícia.

 

Ou seja, entendo que altruísmo é positivo tanto para que executa – que fica mais feliz – quanto para quem é impactado pela ação.

 

O bem ainda tem lugar em nossa sociedade?

Ah, e como! E vou dizer uma coisa, sem medo de errar: o mundo é bom. Acontece que a nossa cultura é a de colocar uma lupa no que é errado, na exceção. Há muita audiência para o acidente, para o crime, para o mal. Mas, se comparar com as coisas boas que acontecem o tempo todo, tudo isso é proporcionalmente pequeno.

Seria bem melhor que os bons exemplos, a atenção dos pais aos filhos, o sorriso da criança, o bem, fossem mais aplaudidos e exaltados. Convido os leitores do jornal a fazerem um exercício simples. Olhem para seus últimos dias e vejam quantas coisas boas ocorreram. Tenho certeza que o bem prevaleceu.

 

É uma questão de foco. O bem não só tem lugar na sociedade, como ele é a regra. Temos é que parar de supervalorizar o mal, que existe, mas, pelo contraste, até nos ajuda a valorizar ainda mais o bem. Ocorre que, de forma geral, as pessoas desperdiçam muita energia com brigas, discussões ou impasses bobos. É muito mais proveitoso concentrar energia em uma ação, causa ou projeto social que vai ajudar e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e solidária.

 

Podemos chamar o bem de várias formas: altruísmo, caridade, solidariedade, justiça, generosidade e por aí vai. Independentemente do sinônimo, trata-se de uma virtude que pode vir de um dom, mas que também pode ser ensinada, aprendida e perpetuada.

 

A senhora é uma pessoa otimista com o mundo, então?

Com certeza! A minha fé e esperança na humanidade me fazem enxergar o lado bom das situações até mesmo em momentos desfavoráveis. Procuro aprender com os erros, não me sentindo derrotada por eles. Entendo que o otimismo como uma força interior de quem deseja avançar, chegar a resultados melhores e influenciar os outros para que também avancem. Trata-se de uma característica das pessoas que atuam com consciência do seu propósito de vida, e que se sentem bem mais felizes do que aquelas que olham os fatos e o mundo com pessimismo.

 

A vida é bela, e, sendo assim, temos que vivê-la. E este viver está ligado ao entendimento de que não há felicidade no egoísmo. Ela tem que ser uma construção coletiva. Volto a repetir que as pessoas podem fazer o bem o tempo todo, no lugar e no tempo que tiverem. Quem faz do convívio familiar, do ambiente de trabalho e do trânsito um lugar melhor, já está fazendo um bem imenso.

 

O Ritinha Prates é uma instituição de grande tradição em Araçatuba. Como uma pessoa pode ajudar o mundo a ficar melhor por meio de instituições como a que a senhora atua?

Esta é outra forma de agir pelo bem da coletividade. O Ritinha e tantas outras casas de apoio, de todos os tipos na nossa cidade, congregam pessoas de vários setores para o bem comum. E estão sempre de portas abertas para quem quiser se juntar. Mas quem não tem tempo para vir pessoalmente, pode ajudar participando das ações que promovemos ou se tornando um parceiro com pequenas doações. Às vezes, as pessoas acreditam que uma pequena doação não faz diferença, mas faz sim. É um leite a mais, um travesseiro, um produto de limpeza a mais, que se somará para o bem dos atendidos.

 

Além disso, existe a possibilidade da realização de trabalhos voluntários. E é muito importante falarmos disso, pois a atuação no Ritinha Prates possibilita o contato com uma realidade muito específica. Aqui, a pessoa normalmente tem uma experiência de vida distinta do que você já vivenciou. Entendo que é uma real oportunidade de contribuir para a transformação social e o bem-estar do próximo.

 

Como é o trabalho do Ritinha Prates?

A nossa instituição, que não tem fins lucrativos, foi criada em 1977 por três pessoas diferenciadas: Elpidio Pedroso, Alice Prates e José Américo do Nascimento. Ela foi crescendo ao longo do tempo alimentada por este bem do qual falamos antes. Foi uma soma de cidadãos que construíram uma nova realidade para centenas de irmãos nossos que precisam de um apoio. Começamos atendendo pessoas com deficiências neurológicas profundas e irreversíveis. Agregamos serviços especializados em reabilitação auditiva, visual e física. Tudo por meio do SUS.

 

A nossa rotina está muito ligada a este pensamento de fazer o bem. O nosso quadro de colaboradores atualmente é superior a 200, mas desde o início contamos com voluntários, como eram os fundadores. Sempre que posso, volto ao tema do voluntariado, que me toca muito. Cada um doa um pouco do seu tempo e do seu talento para que a vida seja melhor para os atendidos.

 

E vou te dizer uma coisa, que não é clichê, mas a pura realidade. Este trabalho faz um bem danado pra gente também. A cada sorriso que vemos das nossas crianças (é assim que Vanda se refere aos usuários do hospital neurológico) temos a certeza de que o mundo todo fica melhor.

 

Está na Bíblia, em Gálatas, capítulo 6, versículo 9: “E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos”. É isso, não podemos desanimar, nunca.